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Journal

POR: CRISTIANO E FRANCISCA VAN ZELLER
1ª entrada no journal

Reflexões sobre Old Vines e a alegria de se tornar membro da Old Vines Conference

por: família Van Zeller

2 Novembro, 2023

Ao fim da tarde juntávamo-nos cá fora no terreiro. Não me lembro de o calor me incomodar já que as memórias da vindima são mais do tempo passado no exterior do que do tempo passado dentro de casa.

Esta hora do dia era o momento em que todos os adultos da casa se reuniam em volta de um copo de champanhe ou de Porto branco, já que nesse tempo o Douro ainda não produzia vinhos brancos em quantidade e qualidade. Sendo uma criança com menos de 7 anos não me lembro do que as pessoas, á minha voltam bebiam e por isso juntava-me mais pelas deliciosas amêndoas tostadas e crocantes, carregadas de sal, que eram normalmente o aperitivo. Uma mão cheia delas e já esteva a correr para continuar a brincadeira. Eram a energia necessária para aguentar as últimas horas do dia em plena brincadeira.

Crescer no Douro significa, entre outras coisas, estar habituada a tropeçar em pedras de xisto quando corria por entre filas de videiras. Estas fila sou bardos, plantados com pouco espaço entre elas eram locais ideias para brincar ás escondidas com os meus primos. O sol abrasador aquecia as pedras de xisto e estas, ao pôr do sol, libertavam um cheiro inconfundível.

Esperando não ser descoberta, escondia-me por entre as folhas verdes das videiras que se transformavam no meu aliado durante estes excitantes minutos. O tempo e o esforço de crescimento das videiras fizeram os seus troncos grossos e lenhosos. Na altura não fazia ideia que estas vinhas velhas plantadas
com tão pouco espaço entre elas, eram parte do segredo para produzir alguns dos grandes vinhos do Mundo. Afinal tratava-se de uma vinha não enxertada que deu reconhecimento mundial á propriedade da minha família.

30 anos depois estou ainda mais intrigada com a existência de vinhas velhas e mais convencida dos benefícios da sua preservação. Assim, quando o meu caminho se cruzou com o “Old Vine Registry” um registo criado há 15 anos por Jancis Robinson MW e Tamlyn Currin num simples documento Excel.

Desde então este registo tem crescido e transformou-se num site onde adegas, Produtores, investigadores, educadores, estudantes e etc podem ter uma experiência mais fácil e um acesso mais franco a toda a informação (Old Vine Registry).

Além disso o Old Vine registry abriu-me o caminho para a Old Vine Conference um movimento ou uma organização fundada por Sarah Abbot MW, Leo Austin, Alun Griffiths MW e Belinda Stone com o objetivo de criar valor no que diz respeito a vinhas velhas em todo o mundo através de um programa d adesão, conferências e visitas ás diferentes regiões vinícolas.

Sendo uma entusiasta deste tema, rapidamente entrei em contacto com Sarah Abbot e Belinda Stone de maneira a perceber como a Van Zellers & Co poderia tornar-se membro e apoiar este projeto. Tenho o prazer de anunciar que já fazemos parte deste projeto incrível!

Mas então o que é isto de Vinhas Velhas?

Segundo a The Old Vine Conference, “as vinhas velhas são um farol para o talento, a inovação e as relações. As melhores vinhas velhas produzem vinhos únicos e transcendentes, incomparavelmente ricos em sabor, simbolismo e património. O material genético das castas antigas, muitas vezes recuperado de vinhas velhas, está a revelar-se vital para a adaptação às alterações climáticas.” Como eu e o meu pai tendemos a concordar, decidi gravar uma conversa entre nós.

CRISTIANO E FRANCISCA VAN ZELLER DECIDEM TER UMA CONVERSA ENTRE ELES

[Francisca] Pai, quando é que percebeu que as vinhas velhas fazem a diferença na qualidade dos vinhos?

[Cristiano] Logo que comecei a fazer vinhos nos anos 80, percebi que tipos de vinhos do Porto seriam produzidos a partir de vinhas novas ou de vinhas mais velhas. Também comecei a experimentar produzir vinhos DOC Douro entre 1985 e o início dos anos 90 na Quinta do Noval, e a partir de 1994 produzi vinhos na Quinta do Crasto, Quinta do Vallado e Quinta Vale D. Maria a partir de vinhas velhas.

Na Quinta do Noval, só tínhamos vinhas velhas e as uvas que comprávamos vinham de vinhas mais novas. A diferença de qualidade era evidente e os vinhos variavam em termos de complexidade. As primeiras vinhas dos patamares modernos da Quinta do Noval foram plantadas nos anos 70 e 80.

Nos anos 80, as vinhas começaram a ser plantadas por castas e acreditou-se que este era o melhor caminho para a região. No entanto, a vantagem crucial do Douro é a mistura de castas na vinha designado por field blend. Atualmente, planta-se de forma menos aleatória do que no início do século XX. Atualmente decidimos as castas que serão plantadas em determinadas encostas e qual a percentagem de cada casta a plantar, mas preservamos a mistura e a alta densidade da antiga forma de plantar.

[Francisca] O que é que acha que é tão importante nas vinhas velhas?

[Cristiano] As vinhas velhas têm uma capacidade magnífica de resistir às alterações climáticas, o que tem sido comprovado ao longo dos tempos. Estou a referir-me às vinhas plantadas antes de 1975, onde a mistura de diferentes castas era uma das características fundamentais. É esta mistura de castas que confere aos vinhos uma complexidade espantosa. Há uma maturação mais homogénea das uvas quando estas são misturadas na vinha. Por conseguinte, podemos colher todas as variedades em conjunto. Isto permite que os vinhos tenham camadas e aromas adicionais, o que não seria possível se misturássemos a mesma quantidade de castas após a fermentação. As vinhas velhas do Douro caracterizam-se por esta diversidade e mistura de castas, pela baixa produtividade de cada videira devido à sua idade, e, portanto, pela concentração acrescida que influencia diretamente, de forma positiva, a qualidade do vinho ao longo das diferentes fases de produção e envelhecimento.

[Francisca] Qual tem sido o seu maior desafio ao trabalhar com vinhas velhas?

[Cristiano] Mantê-las vivas e manter a diversidade; assegurar que, quando replantamos, mantemos a diversidade que existia originalmente na vinha; garantir que têm uma vida longa e saudável; o trabalho manual que é necessário para a sua preservação. As vinhas velhas encontram-se em plantações de alta densidade, por isso, fazer trabalhos nestas vinhas é um desafio e que só pode ser feito pela mão do Homem.

[Francisca] Já afirmou que algumas das melhores colheitas do século XX foram produzidas com vinhas jovens e não com vinhas com mais de 40 anos. A vinha que plantou em 2004 também começou a produzir um dos vinhos mais aclamados do Douro em 2016. Então, a idade é o principal fator de qualidade?

[Cristiano] A idade é um dos fatores, não o principal. Quando a vinha é, no seu conjunto, de qualidade, ou seja, o solo onde está plantada, a densidade de plantação, o cuidado que foi dado às plantas, as castas que se encontram naquela parcela, a idade funciona como um potenciador da qualidade.

[Francisca] Quando se decide preservar as vinhas velhas, a sustentabilidade é um fator importante na decisão ou é uma preocupação económica e de qualidade?

[Cristiano] Eu diria que a resposta é ambas. As vinhas velhas do Douro têm uma biodiversidade imensa. Se as mantivermos, estamos a preservar a biodiversidade. A regeneração do solo onde as vinhas estão plantadas é fundamental para podermos preservar as vinhas e o ecossistema que as rodeia. Desta forma, podemos preservar as vinhas velhas, pelo que a manutenção destas vinhas, que garantem a elevada qualidade dos nossos vinhos, exige sustentabilidade, ou seja, práticas que possam sustentar a natureza, o meio natural e o ecossistema onde estas vinhas sobrevivem. Um não existe sem o outro: A sustentabilidade garante a existência das vinhas velhas e as vinhas velhas são a prova de que a sustentabilidade existe.

[Francisca] Vamos supor que vamos começar de novo. Está a iniciar um novo projeto. Encontra uma vinha com 100 anos chamada Silvas, que sabemos que hoje produz CV, mas que ainda não produziu nenhum vinho. Só pode fazer um vinho com ela. Fazia um Douro DOC tinto ou um Porto Vintage? E porquê?

[Cristiano] Essa é uma boa pergunta, mas teria de dizer ambos. Usaria metade das uvas que a vinha produz para criar um Douro DOC tinto e metade para produzir um vinho do Porto e tentaria fazer um Porto Vintage. Aliás, foi isso que sempre fiz nos projetos que iniciei na região do Douro. Continuo a acreditar que a magnificência e a beleza das vinhas velhas do Douro é a sua capacidade de produzir grandes vinhos tintos e Portos com uma enorme capacidade de envelhecimento.

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