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História líquida em garrafa

Cada garrafa desta irrepetível coleção conta uma história, refletindo um momento da História que há muito passou.. 



Esta coleção inclui:

Crafted by Liberty


Celebra o ano em que Abraham Lincoln foi eleito o 16º presidente dos Estados Unidos, em 1860

Crafted by Family


Assinala o casamento dos trisavós de Cristiano em 1870

Crafted by Poetry


Comemora o nascimento do ilustre poeta Fernando Pessoa em 1888.

Foi a Liberdade que nos permitiu escolher estes vinhos.

Foi a Família que nos permitiu cuidar deles.
Foi a Poesia que agora os partilhamos.

Para complementar a experiência do século XIX, colaborámos com a Vista Alegre Atlantis, fundada em 1824, reconhecida pela qualidade superior do cristal e da porcelana. O “decanter” soprado à mão, concebido exclusivamente para a coleção Van Zellers & Co XIX The Rare Port Collection, complementa o conjunto de forma magnífica.

A coleção inclui três gargantilhas de prata da Leitão & Irmão, joalheiros oficiais da coroa portuguesa desde o século XIX. Estas gargantilhas adornam o” decanter” de cristal e distinguem cada vinho, guardando o segredo por detrás da história de cada Porto Very, Very Old Tawny.

Ben Howkins e o homem por detrás do vinho

Ben Howkins

Já alguma vez se perguntou que tipo de pessoas terão criado o vinho que neste momento tem  no seu copo? Será que era uma pessoa bonita e perfumada? Ou era robusto e generoso?  Seriam marido e mulher?

O mesmo se passa com os chefes de cozinha. Um chefe magro oferecerá provavelmente iguarias mais elaboradas para comensais mais sérios e exigentes ; um chefe mais roliço e sorridente  fará comida para gentes que valorizam mais a saciedade e a abundância.

O que é maravilhoso nos vinhos produzidos por famílias, e não por empresas, é que parece haver de facto uma relação entre o criador e o seu vinho.

O exemplo clássico é o de Bordéus, onde as duas magníficas propriedades Rothschild, o Chateau Lafite e o Chateau Mouton Rothschild, embora estejam localizadas apenas a alguns metros de distância, têm dois estilos completamente diferentes. O primeiro tem um equilíbrio perfeito, uma elegância extrema e pode ser considerado a referência do melhor vinho de Bordeus. O equilíbrio perfeito e a extrema elegância poderiam muito bem descrever o Barão Eric de Rothschild, que foi o membro da família responsável por esta propriedade durante quarenta anos. Eric personifica absolutamente Lafite, como estou certo de que a sua encantadora filha, Saskia, o fará nos próximos anos.

A proprietaria  do Chateau Mouton Rothschild, nessa mesma época,  era a ex-atriz e extrovertida Baronesa Philippine de Rothschild. Philippine vivia a vida a todo o vapor.  E já adivinhou ? Os vinhos de Mouton são claramente mais extrovertidos e fulgurantes.

No final do século passado e no início da explosão dos cabernets de Napa valley na California os vinhos tinham um elevado teor alcoólico e todos nos perguntámos porquê. Sabíamos que Robert Parker gostava deste tipo de vinhos  mas era uma situação que nos fazia pensar “ apareceu primeiro a galinha ou o ovo?”. Será que os produtores se curvaram aos pontos de Parker ou será que Parker encorajou esta caraterística entre a nova fraternidade de proprietários de vinhas da California?



Um perspicaz Relações Públicas de Napa deu-me razão. Este novo grupo de proprietários de vinhas de topo de Napa tinha, na sua maioria, ganho dinheiro vendendo as suas empresas de informática/construção para financiar o seu sonho de ter uma vinha. Para além de desfrutarem de um clima quente e agradável, também gostavam de martinis fortes, whiskies e gins de luxo. O elevado grau alcoólico significava mais qualidade.

O mesmo acontecia com os seus vinhos. Queriam que os seus vinhos ultrapassassem a barreira dos 14,5% ou mais. Uma aspiração nobre, mas não para mim. E, os valores normais estão agora a ser retomados.

No Vale do Douro, no Norte de Portugal, o majestosa berço do vinho do Porto,   teve durante séculos múltiplas personalidades  que foram moldando o comércio e o estilo dos vinhos de que mais gostavam.


Os exemplos clássicos mais recentes incluem, sem dúvida, o proprietário da Taylor’s, o elegante ex-membro da Guarda Escocesa,  Alistair Robertson. O vinho do Porto vintage da Taylor’s é conhecido por ter “espinha dorsal” (espinha dorsal de ramrod?) e é de facto elegante, duradouro e generoso.


Em contraste, o porto Fonseca, também parte do universo Taylor é certamente moldado à imagem do seu lendário produtor, Bruce Guimaraens. O vinho do Porto  Fonseca é robusto, vigoroso, com intenso aroma de fruta, uma alegria que nos envolve  e um  porto forte e valente – ou será esta a descrição da perosnalidade de Bruce? David, o filho de Bruce, continua alegremente a tradição familiar, ao mesmo tempo que acresenta nos vinhos notas pessoais.


Durante muitos anos, o vinho do Porto Croft, empresa onde trabalhei, era propriedade de Robin Reid, cuja mulher Elsa e as suas três filhas davam um certo equilíbrio feminino aos procedimentos. A Croft tem, de facto, notas mais florais na sua composição.

Cristiano van Zeller, atual guardião da dinastia van Zeller, tem o ar de um aristocrata, com a sua figura cheia e a sua bela barba. Poderia estar igualmente à vontade no seu castelo ou no seu clube. O seu mais recente lançamento de três Colheitas do século XIX, de 1888, 1870 e 1860, parece ser a escolha perfeita.


Imagine como seria a vida durante esses anos  num clube de cavalheiros de St James’s Street.  Duques a chegarem das suas propriedades no campo; Lordes a tomarem uma bebida depois de terminar a sessão do Parlamento e homens de negócios a chegarem da City de Londres  conduzidos nas suas carruagens. Jantares onde são servidas grandes quantidades de vinho do Porto e jogos de azar que elevando os níveis de adrenalina  mantinham estes convivas acordados até de madrugada. A conversa e as apostas fluíam em igual medida. Foi neste mundo que nasceram estes vintages. Apreciá-los hoje é, de facto, um prazer único que nos deixa boquiabertos.

O meu último livro “Adventures in the Wine Trade – Diary of a Vintners Scholar”, recentemente publicado pela Academie du Vin, descreve a minha primeira visita ao Vale do Douro nesse célebre ano de 1963 ano de um do mais afamados Vinhos do Porto Vintage do seculo passado. Há algo de mágico, algo de interminável e algo que vai diretamente ao coração quando se prova e aprecia estes vinhos que são fonte de enorme prazer.

Há também um sentido de humor, um sentido de camaradagem que acompanha este que é o mais inglês dos vinhos não ingleses, saiba mais aqui.

Photographer – Carolina Pimenta for The Last Drop

Reflexões sobre Old Vines e a alegria de se tornar membro da Old Vines Conference

Mas então o que é isto de Vinhas Velhas?

Segundo a The Old Vine Conference, “as vinhas velhas são um farol para o talento, a inovação e as relações. As melhores vinhas velhas produzem vinhos únicos e transcendentes, incomparavelmente ricos em sabor, simbolismo e património. O material genético das castas antigas, muitas vezes recuperado de vinhas velhas, está a revelar-se vital para a adaptação às alterações climáticas.” Como eu e o meu pai tendemos a concordar, decidi gravar uma conversa entre nós.

CRISTIANO E FRANCISCA VAN ZELLER DECIDEM TER UMA CONVERSA ENTRE ELES

[Francisca] Pai, quando é que percebeu que as vinhas velhas fazem a diferença na qualidade dos vinhos?

[Cristiano] Logo que comecei a fazer vinhos nos anos 80, percebi que tipos de vinhos do Porto seriam produzidos a partir de vinhas novas ou de vinhas mais velhas. Também comecei a experimentar produzir vinhos DOC Douro entre 1985 e o início dos anos 90 na Quinta do Noval, e a partir de 1994 produzi vinhos na Quinta do Crasto, Quinta do Vallado e Quinta Vale D. Maria a partir de vinhas velhas.

Na Quinta do Noval, só tínhamos vinhas velhas e as uvas que comprávamos vinham de vinhas mais novas. A diferença de qualidade era evidente e os vinhos variavam em termos de complexidade. As primeiras vinhas dos patamares modernos da Quinta do Noval foram plantadas nos anos 70 e 80.

Nos anos 80, as vinhas começaram a ser plantadas por castas e acreditou-se que este era o melhor caminho para a região. No entanto, a vantagem crucial do Douro é a mistura de castas na vinha designado por field blend. Atualmente, planta-se de forma menos aleatória do que no início do século XX. Atualmente decidimos as castas que serão plantadas em determinadas encostas e qual a percentagem de cada casta a plantar, mas preservamos a mistura e a alta densidade da antiga forma de plantar.

[Francisca] O que é que acha que é tão importante nas vinhas velhas?

[Cristiano] As vinhas velhas têm uma capacidade magnífica de resistir às alterações climáticas, o que tem sido comprovado ao longo dos tempos. Estou a referir-me às vinhas plantadas antes de 1975, onde a mistura de diferentes castas era uma das características fundamentais. É esta mistura de castas que confere aos vinhos uma complexidade espantosa. Há uma maturação mais homogénea das uvas quando estas são misturadas na vinha. Por conseguinte, podemos colher todas as variedades em conjunto. Isto permite que os vinhos tenham camadas e aromas adicionais, o que não seria possível se misturássemos a mesma quantidade de castas após a fermentação. As vinhas velhas do Douro caracterizam-se por esta diversidade e mistura de castas, pela baixa produtividade de cada videira devido à sua idade, e, portanto, pela concentração acrescida que influencia diretamente, de forma positiva, a qualidade do vinho ao longo das diferentes fases de produção e envelhecimento.

[Francisca] Qual tem sido o seu maior desafio ao trabalhar com vinhas velhas?

[Cristiano] Mantê-las vivas e manter a diversidade; assegurar que, quando replantamos, mantemos a diversidade que existia originalmente na vinha; garantir que têm uma vida longa e saudável; o trabalho manual que é necessário para a sua preservação. As vinhas velhas encontram-se em plantações de alta densidade, por isso, fazer trabalhos nestas vinhas é um desafio e que só pode ser feito pela mão do Homem.

[Francisca] Já afirmou que algumas das melhores colheitas do século XX foram produzidas com vinhas jovens e não com vinhas com mais de 40 anos. A vinha que plantou em 2004 também começou a produzir um dos vinhos mais aclamados do Douro em 2016. Então, a idade é o principal fator de qualidade?

[Cristiano] A idade é um dos fatores, não o principal. Quando a vinha é, no seu conjunto, de qualidade, ou seja, o solo onde está plantada, a densidade de plantação, o cuidado que foi dado às plantas, as castas que se encontram naquela parcela, a idade funciona como um potenciador da qualidade.

[Francisca] Quando se decide preservar as vinhas velhas, a sustentabilidade é um fator importante na decisão ou é uma preocupação económica e de qualidade?

[Cristiano] Eu diria que a resposta é ambas. As vinhas velhas do Douro têm uma biodiversidade imensa. Se as mantivermos, estamos a preservar a biodiversidade. A regeneração do solo onde as vinhas estão plantadas é fundamental para podermos preservar as vinhas e o ecossistema que as rodeia. Desta forma, podemos preservar as vinhas velhas, pelo que a manutenção destas vinhas, que garantem a elevada qualidade dos nossos vinhos, exige sustentabilidade, ou seja, práticas que possam sustentar a natureza, o meio natural e o ecossistema onde estas vinhas sobrevivem. Um não existe sem o outro: A sustentabilidade garante a existência das vinhas velhas e as vinhas velhas são a prova de que a sustentabilidade existe.

[Francisca] Vamos supor que vamos começar de novo. Está a iniciar um novo projeto. Encontra uma vinha com 100 anos chamada Silvas, que sabemos que hoje produz CV, mas que ainda não produziu nenhum vinho. Só pode fazer um vinho com ela. Fazia um Douro DOC tinto ou um Porto Vintage? E porquê?

[Cristiano] Essa é uma boa pergunta, mas teria de dizer ambos. Usaria metade das uvas que a vinha produz para criar um Douro DOC tinto e metade para produzir um vinho do Porto e tentaria fazer um Porto Vintage. Aliás, foi isso que sempre fiz nos projetos que iniciei na região do Douro. Continuo a acreditar que a magnificência e a beleza das vinhas velhas do Douro é a sua capacidade de produzir grandes vinhos tintos e Portos com uma enorme capacidade de envelhecimento.

Desde que escrevemos este texto, a nossa relação com a Old Vine Conference aprofundou-se de formas que não antecipávamos.

Em Outubro de 2024, tivemos a oportunidade de apresentar na 6ª edição da conferência, numa sessão dedicada à viticultura regenerativa e às vinhas velhas, moderada pela Regenerative Viticulture Foundation. Partilhámos o palco com produtores de Itália e falámos sobre o ensaio de campo que estamos a desenvolver no Douro com a Universidade de Aveiro e a Entogreen — testando fertilizantes orgânicos derivados de insectos nas nossas vinhas. Foi uma confirmação de que o caminho que escolhemos faz parte de um movimento global, e não apenas de uma decisão local.

Em 2025, a Francisca van Zeller foi convidada a ser Head Judge do Next Generation Award — um dos prémios anuais da Old Vine Conference, julgado por um painel internacional de especialistas em vinhas velhas que incluiu Rosa Kruger, Sarah Abbott MW, Adrianna Catena e Shawn DeMartino. É uma responsabilidade que aceitou com humildade, e com a consciência de que reconhecer o trabalho dos outros é também uma forma de perceber o que ainda temos por fazer.

A Old Vine Conference não é uma certificação nem um selo. É uma comunidade de pessoas que acreditam que certas coisas valem a pena preservar — e que essa preservação exige acção, não apenas intenção. É exactamente isso que tentamos fazer, dia após dia, nas encostas do Douro.

O Mergulho

No dia 7 de dezembro, fui a Sines para participar no mergulho das garrafas. Foi o meu primeiro mergulho de sempre. Pratiquei primeiro com a garrafa de oxigénio durante alguns minutos e estava pronta para mergulhar. As grades com as garrafas  foram mergulhadas a 10 metros de profundidade. Despressurizei uma vez e deixei-me levar pelo peso das garrafas até à rocha onde iriam repousar durante um ano. Permaneci 26 minutos debaixo de água, onde fiquei a conhecer o ambiente envolvente. Filmámos este mergulho, mas certamente nunca o esquecerei.

Mais novidades em breve!

Algumas imagens e clips do mergulho podem ser vistos aqui.

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